José Bértolo — O último ano (Maria)

O fim do projecto GHOST coincidiu com o desaparecimento da Maria, cuja morte tinha sido anunciada havia cerca de um ano. Este projecto teve a duração de vinte e quatro meses. A Margarida Medeiros desapareceu precisamente no décimo segundo mês, um mês antes de a doença da Maria ser diagnosticada. O segundo ano de vida do GHOST acompanhou o meu luto pela amiga perdida e pela perda iminente da minha gata.

No início de 2024, decidi criar um diário fotográfico. Intitulei-o 366 por ser um ano bissexto. Fotografei diariamente; fui seleccionando uma imagem por dia. O diagnóstico surgiu no dia 44 e, a partir de então, o jogo resumiu-se a saber durante quantos dos 366 dias a Maria sobreviveria. Contra todas as expectativas, ultrapassou-os: viveu 399. Morreu a 2 de Fevereiro, dois dias após a conclusão do GHOST. Entretanto, o diário do ano de 2024 tinha-se transformado no diário do último ano da Maria, um ano com 399 dias.

O luto por uma morte inevitavelmente próxima transforma a relação com o mundo, que passa a ser experienciado e lido de forma diferente. Impassível, a máquina fotográfica não regista a consciência, não captura o pensamento nem as sensações de quem sabe que está a documentar uma despedida. As fotografias são puros ícones, sem palavras ou sentimentos: são, portanto, o exacto contrário de alguém que vive o luto.

Assombrado pela morte por vir, vivi o longo ano à procura de sinais, presságios, mensagens. O luto antecipado é assim, torna-nos escravos do significado, a escavar no que é avesso ao sentido. Um caminho contra a morte, verdadeiramente.

Parece que a Maria — que, entre Ava Gardner e Greta Garbo, nasceu para ser uma estrela; sim, um ícone — esperou até à conclusão do projecto para protagonizar a última espectrografia. A Margarida tinha tido a sua, agora era a vez da Maria.

Estas Espectrografias terminam, então, em jeito de butsudan (em japonês, porque a Maria é um kuroneko), um memorial feito de cinquenta momentos extraídos dos últimos 399 dias de Maria, inseridos numa sequência, roubados ao tempo. Partilho-o com quem quiser partilhar comigo a tarefa de cuidar dos fantasmas.

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