Ana Castro — Espectrologia do Amante: 3 Fantasmas

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Fantasma 1

Convivo, há anos, com um fantasma com cheiro.

É, de resto, o fantasma que nunca me abandonou e sou-lhe grata por isso.

Não há ano em que ele não apareça, mais ou menos pela mesma altura. Fica por perto alguns dias e depois vai à sua vida. Eu sinto-me sempre mais viva depois.

Ele cheira a afia-lápis, aquilo a que cheiram os lápis quando se apara a ponta e ficam umas rendas de madeira. Talvez também um pouco a borracha, agora que penso nisso. Não consigo distinguir bem, mas é definitivamente cheiro a estojo da escola.

Aparece-me pelo final do verão e ajuda-me a pensar nos meses de frio com conforto, sem medo que possam nunca acabar.

Quando me aconteceu pela primeira vez, curiosamente, assustou-me. Pensei que não ia largar-me nunca, sempre a obrigar-me a pensar em deveres, manhãs escuras. Mas acabei por gostar verdadeiramente de senti-lo próximo, sinto a sua falta se se atrasa, coisa que não é nada do seu temperamento, será provavelmente falha minha, nariz entupido. 

Ao fim de algumas décadas, umas quantas casas de pouca bagagem e menos olfato, coube ao meu fantasma fazer apelo a outros pactos. Deixou-me um lápis, um terço de lápis afiado, com o meu nome inscrito a caligrafia esmerada que teria sido a minha na primeira classe. É da natureza dos fantasmas manterem-se perto. Da minha, aguçá-lo.

 

Fantasma 2

O meu melhor fantasma tem um nome, um corpo, paga impostos, tem cartão de cidadão e condomínio. Tem uma vida de corpo como qualquer outro. Come, dorme, esfrega os dentes. Põe a roupa suja na máquina de lavar. Rega as suas plantas. Adormece no sofá a ver porcarias na televisão. Leva o carro à inspeção. Escolhe o destino de férias. Não sei se assobia ou se não sabe. Já lhe aconteceu pisar cocó de cão. Ganhou um pouco de barriga com a idade. Continua a sorrir com os olhos como antes. A comover-se com coisas inexplicáveis, mas menos que antes. As pessoas chamam-no pelo seu nome, algumas pelo nome da sua profissão. Todas, menos eu. Eu não o chamo. Dou-lhe um nome privado que não se vê. Nem sequer o digo alto. Há fantasmas que se evaporam no momento em que os chamamos, não quero correr esse risco.

O meu melhor fantasma aparece-me quando lhe apetece. Menos vezes do que eu gostaria que ele aparecesse. Deixa-se ficar por pouco tempo. Faz-me feliz. Depois vai-se embora. Volta para a sua vida de corpo. Vai às compras, faz o jantar e volta a estender-se no sofá onde adormece sem ter tirado as meias. Talvez ressone, nunca o saberei. Talvez se cubra com uma manta clara e deixe o nariz de fora. Por onde é que respiram os fantasmas, se nunca abrem a boca para as palavras que desejamos escutar?

Não me pesa, este fantasma. Mesmo nada. Isso aborrece-me. Mas sei que não podemos decidir da vida dos fantasmas, eles lá têm as suas missões, as suas incumbências. Uma certeza que me deslumbra e não questiono.

Estendo-me no sofá, ligo a televisão, vagueio no écran até à dormência. Penso: será que aos fantasmas podemos desejá-los?

 

Fantasma 3

Tenho um amigo que colecionava nuvens. Encontrava uma nova a cada dia, a cada hora do dia. Comunicava com elas no seu código pessoal, embora as nuvens sejam umas desbocadas, capazes de falar com toda a gente. Ele atirava setas de palavras às nuvens e, por vezes, oferecia aquelas que conseguia capturar.

Não o tenho visto. As nuvens são irrequietas, movem-se depressa quando querem, têm muito espaço, acho que ele anda por aí no encalço. Nem imagino o caminho que já leva.

Podemos perder-nos assim, compreendo-o. Basta uma nuvem.

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