António Baião — O homem, essa casa assombrada

Nós somos os fantasmas de guerras que
fizemos os sem coragem.
(João Miguel Fernandes Jorge, «9», Actus Tragicus, Lisboa, Presença, 1979, p. 24)

 

Quem tenha tido a infelicidade de ser capturado pelo algoritmo e arrastado para o recreativo lamaçal que é a /phil/sphere certamente já deu por si a passar algumas horas a fazer doom scrolling por memes sobre Max Stirner. «Max é conhecido pelos memes feitos acerca dele», escreveu o user cleverpanda1 no post destacado do subreddit r/fullegoism. As variações destes memes são infinitas, mas giram todas em volta de duas ideias muito simples: leite (com a herança da sua mulher Marie Dähnhard, Stirner terá aberto uma leitaria, que rapidamente foi à falência) e espectro (Der spuk, vertido para inglês como the spook, na criativa tradução de Steven T. Byington). Stirner parece que está destinado a ser uma caricatura. Veja-se como o único retrato que dele se conhece é um desenho que Engels terá feito de memória, quase quarenta anos depois da sua morte. E quando encontramos St. Max, o pérfido vilão de A Ideologia Alemã, imediatamente imaginamos Marx aos berros e a esbracejar porque alguém chegou primeiro do que ele aos fantasmas. Também Derrida contribuiu para esse fim, ao alcunhá-lo de «caça-fantasmas», no seu Spectres de Marx[1]. Hoje, Stirner vagueia no cemitério digital sem cara, sem corpo, sem carne, preso a conceitos, reconhecido por ideias. Lamentável destino, o de Stirner: transformaram-no no seu próprio fantasma.

O processo de espectralização de Stirner foi, contudo, iniciado pelo próprio: «Max Stirner», um membro ocasional das tertúlias dos «Jovens Hegelianos», é o pseudónimo de Johann Caspar Schmidt (o nome do meio também remete imediatamente para outros fantasmas, porventura mais amigáveis). Stirner foi o autor de um curioso livro que leva o título de O Único e a Sua Propriedade, cuja primeira edição deu à estampa em 1844. Ao contrário do que alguns procuraram lá encontrar, O Único não é um livro teórico, uma nova incursão no idealismo alemão, uma análise fenomenológica, mas algo particularmente diferente. O Único é um teatro macabro, cujos intérpretes são fantasmas tão reais que podem até ser nomeados, que circulam livre e impunemente e que reclamam para si mesmos a função de produzir mundo. A tarefa de Stirner é, pois, exactamente a oposta: revelar a dimensão espectral na constituição do real, exorcizar os fantasmas, e, de caminho, não deixar rasto, destruir mundo, destruir o todo, destruir tudo. Afinal, Stirner, ao parafrasear Goethe, abre O Único a proclamar que a sua causa é a «causa de nada» (p. 9)[2].

Não se pense, contudo, que O Único é uma melancólica elegia. O tom que percorre este corredor de almas penadas é o do escarninho, da provocação, da zombaria, como Wolfi Landstreicher admite na introdução que preparou para a sua tradução de O Único[3]. Stirner não esconjura os fantasmas através de uma enfadonha récita: troça deles, obriga-os a bater em retirada e a regressar ao espelho. Mais do que o teórico do egoísmo, o sábio arquitecto do individualismo anarquista[4], o crítico exaltado, Stirner é simplesmente o derradeiro bufão, o wise guy, como Landstreicher certeiramente lhe chama. O Único pode efectivamente ser lido como uma longa e verrinosa diatribe contra um longo catálogo de fantasmas, mas, à partida, existe um alvo claramente definido por Stirner. Este fantasma é, em certa medida, a condição de possibilidade de todos os outros fantasmas, é ele que lhes dá forma e substância, que lhes dá nome. Esse fantasma, que convocou a missão de escrever e assombrar o real, e que é ridicularizado por Stirner ao longo de todo O Único, é o discurso filosófico.

A intuição de Landstreicher, de que a filosofia é a sombra que paira em O Único e contra a qual Stirner se projecta, revela-se acertada quando olhamos para a própria forma do livro, que parodia tanto a dialéctica hegeliana como a filosofia da história da Fenomenologia do Espírito, mas também a organização de A Essência do Cristianismo, de Feuerbach. O Único apresenta-se orgulhosamente como um livro contra a filosofia, um anedotário sobre a filosofia e o seu próprio corpo enunciativo, com as suas vontades, as suas essências, as suas naturezas e as suas coisas em si. Recorde-se que o mundo fantasmagórico dos númenos, que para Kant era ainda inacessível por estar para lá dos limites auto-impostos da razão, reaparecera com Hegel como um território inteligível. E o que Stirner vai ler nos seus contemporâneos, numa certa parentela hegeliana, mais não é do que a invasão do mundo fenoménico pelos fantasmas, que o discurso filosófico certificará não só como os resíduos fundamentais do real, mas também como os parresiastas modernos. «Para conhecer a verdade, oiçam-se os espectros, eles são a essência do mundo». O fantasmagórico discurso filosófico acabou por criar um espectro encorpado, uma sombra sensível, um corpo que é espírito puro, uma ilusão verdadeira. Um sistema autopoiético: o fantasma-como-discurso produz um fantasma-como-produtor-de-mundo, que Stirner se apressa a qualificar de absurdo e de monstro. Eis, então, um fantasma deformado e monstruoso: o homem.

Este homem, que já alguém disse ser uma invenção muito recente, não é objecto de qualquer genealogia em O Único, como poderia parecer à primeira vista. Não se trata, tão-pouco, de escrever o Bildungsroman do espírito que atravessa a história para triunfalmente ganhar a consciência de si como absoluto. Isso, sabemo-lo, era o projecto de Hegel e isso é, também, aquilo de que Stirner irá zombar, enquanto procura roubar a carne à transcendência e a matéria ao espírito, que desde Schelling se encontrava nas mãos desse fantasma. O movimento é ainda ao arrepio de tudo isto: em O Único, Stirner propõe apenas olhar para a constituição do homem como um fantasma que se assombra a si mesmo e que se dá ao mundo em permanente aflição. O fantasma é este homem-destituído, que tem medo de si mesmo, que é o seu próprio lobo[5], que se auto-reprime ao inventar leis para se submeter a si mesmo. Para Stirner, o discurso filosófico tratou de criar dispositivos espectrais que, de forma intensamente pedagógica, ensinaram o homem a escutar a sua essência silenciosa e a obedecer aos seus constituintes fantasmáticos: todo um inventário de vontades, de leis morais e naturais, de Rousseau a Proudhon, que prescrevem ao homem amedrontado que a sua salvação depende do acto de acorrentar o fantasma que dentro dele se esconde.

O mundo inventado por este homem que fala a linguagem dos filósofos não pode ser outra coisa que não um reino de terror. Mas veja-se como este homem – que é, em simultâneo, o rei do medo e o rei medroso – desempenha uma função criadora. Afinal, como Stirner lê em Feuerbach, neste homem, na sua hubris produtiva de mundo, encarna o derradeiro espectro, o espírito absoluto, o fantasma da transcendência: um Deus criador, um Deus vingativo. O homem como fantasma divino sacraliza-se a si e aos espectros que ele próprio criou para povoarem o seu cenário de horror. «Há espectros em todos os cantos!», grita Stirner (p. 41). E estes fantasmas cantam ao homem uma delicada melopeia, juram salvá-lo do seu pranto, sussurram-lhe promessas de paz. O direito, o casamento, o bem comum, a ordem, a pátria, a justiça, são só alguns desses espectros elencados por Stirner para pôr fim ao medo e para assombrar o pavor. Mas todos estes pequenos fantasmas empalidecem perante a mais elevada das assombrações produzidas pelo próprio homem, que o livra do medo precisamente porque lhe mete medo. É um espectro em corpo de monstro, é o fantasma que fugiu da transcendência para se sepultar no imanente, é o desejo mais essencial e autêntico do homem amedrontado e cobarde. É o Estado.

A aparição espectral do Estado não se trata, pois, de uma absoluta exterioridade ao homem. Não é um fantasma que lhe seja alheio, mas um produto imenso da sua vontade temerosa. É, se quisermos, o produto de uma servidão voluntária, como aquela que Saul Newman lê em O Único[6]. Mas, para lá dessa camada mais epidérmica, a espectralidade do Estado manifesta-se especificamente na sua total transparência: o Estado é verdadeiramente um fantasma porque nele não se pode tocar, que paira invisivelmente como sombra do seu criador. Assim, o Estado não é redutível a um agregado físico de instituições ou de aparatos ideológicos, como alguns estruturalistas diriam mais de um século depois do lançamento de O Único. Pelo contrário, e antecipando o que Gustav Landauer diria acerca do Estado umas décadas mais tarde, Stirner define-o como «um entrançado e uma rede de dependências e adesões [...], uma coesão, no âmbito da qual os membros se adaptam uns aos outros, ou seja, dependem uns dos outros: o Estado é a ordem dessa dependência» (pp. 176-177). Em poucas palavras, o Estado é o espírito que atormenta as relações entre os sujeitos, que se apodera dos seus corpos, que lhes impõe uma filialidade, que, enfim, lhes rouba a sua unicidade. O Estado, que não raras vezes aparece em O Único definido como status, de facto estagna, normaliza[7], paralisa e apaga o homem. Contra o carnaval da vida, o fantasma do Estado mortifica.

O homem criou o seu próprio coveiro. Ao inventar o Estado e ao fixá-lo como ideia, o homem acabou a encabeçar o seu próprio cortejo fúnebre. Um homem que já não o é, ou que é, afinal, um mero fantasma, que se auto-mutilou e ao qual apenas resta fazer o trabalho de luto de si próprio. O Estado é o espírito da morte que se esconde na sombra do homem, que o deixa em transe, que o assusta e atormenta. Mas há ainda uma vida por viver. Bragança de Miranda refere precisamente esta questão como um dos eixos centrais da espectrografia stirniana: «Não está em causa a filosofia, nem a desconstrução das suas ilusões, mas os modos de usar a vida»[8]. E o embate de Stirner com os fantasmas, nesta sua versão de um anarquismo vitalista, mais não é do que um exercício de recuperação de uma vida que só o é se puder ser gozada[9]: «Portanto, o que nós buscamos é o gozo da vida» (p. 251). É certo que Derrida não estará totalmente errado, ao sugerir que em O Único podemos encontrar alguns vestígios de uma hantologie, isto é, de uma descrição paródica do modo pelo qual os fantasmas acabam por assombrar o presente político. Mas o gesto de Stirner é ainda diferente: O Único pode ser lido, também, como um regresso da vida à carne através da produção de um outro modo de ser.

Perante a ocupação do espaço discursivo da filosofia por sujeitos transcendentais, unidades sintéticas da apercepção, espíritos absolutos, auto-consciências, vontades gerais, boas vontades, por todo este espectro de espectros, Stirner responde com um verdadeiro carnaval. E a festa da carne que encontramos em O Único não tem lugar para fantasmas, mas para sujeitos reais, demasiado reais. São os extravagantes vagabundos, os preguiçosos, os madraços, os criminosos, a canalha, que escapam à assombração do Estado, num duplo sentido: não têm status, não tem estabilidade. O seu modo de vida é escandaloso, não só porque subvertem o encanto fantasmagórico da moral; é-o, principalmente, porque revela uma vida que goza: uma vida que frui, mas também uma vida que troça do verdadeiro homem do humanismo. Surpreenderá alguém que Foucault tenha encontrado em Stirner uma expressão exemplar, ou pelo menos uma simples tentativa, de reconstituição de um novo modo de vida, de uma existência desassombrada, de uma nova «estética de si»[10]?

*

«Cuidado, rapaz, tens a cabeça cheia de fantasmas, tens obsessões a mais!», avisa Stirner (p. 41). Mas como pode o sujeito libertar-se desses espectros que resistem em atormentá-lo? Perdendo o medo aos fantasmas. Perder o medo ao Estado, mas também perder o medo a si próprio. O que Stirner parece continuamente insinuar, logo quando cita A Morte de Wallenstein, de Schiller, é que a coragem é a condição de possibilidade para uma vida verdadeira, que é uma vida agonística, ingovernável, sem tutelas, sem fantasmas. Reclamar a vida corajosamente aos «sem coragem», mesmo que isso seja o mais egoísta a fazer.

[1] Jacques Derrida, Spectres de Marx, Paris, Galillée, 1993, p. 223.

[2] Todas as citações em corpo de texto remetem para a edição portuguesa de O Único e a Sua Propriedade, com tradução de João Barrento (Lisboa, Antígona, 2004).

[3] Max Stirner, The Unique and Its Property, trad. Wolfi Landstreicher, Baltimore, Underworld Amusements, 2017.

[4] É este o ângulo que Alfredo M. Bonanno explora em Teoria dell’individuo. Stirner e il pensiero selvaggio (Edizioni Anarchismo, 1999).

[5] Em «Stirner, o passageiro clandestino da história», que Bragança de Miranda escreveu, à laia de posfácio, para a tradução portuguesa de Barrento na Antígona, assinala-se com muita argúcia que o diagnóstico de Stirner é implacavelmente municiado por Hobbes.

[6] Saul Newman, «Stirner’s Ethics of Voluntary Inservitude», in Saul Newman (ed.), Max Stirner, London, Palgrave Macmillan, pp. 189-209.

[7] Beatriz de Almeida Rodrigues trata deste tópico em «Crime e fruição. O egoísmo de Max Stirner como discurso de resistência contra a dominação?».

[8] José A. Bragança de Miranda, «Stirner, o passageiro clandestino da história» in Max Stirner, O Único e a Sua Propriedade, trad. João Barrento, Lisboa, Antígona, 2004, p. 305.

[9] Remeto novamente para o estudo de Beatriz de Almeida Rodrigues sobre Stirner, que tem precisamente o título de «Crime e fruição».

[10] Michel Foucault, L’Herméneutique du Sujet. Cours au Collège de France (1981-1982), Paris, Gallimard & Éditions du Seuil, p. 241.

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