António Pedro Marques — Nada consta (Ruy Belo)
.
Nada sei sobre fantasmas – odeio as viagens e os exploradores –, e à partida todo o discurso espectralizante merece-me essa desconfiança defensiva que cauciona a ignorância, ou então a imediata tentação do dichote, bomba de fumo, rota de fuga: por exemplo, que qualquer espectralização é uma nota de rodapé a Pedro Páramo (fim do ensaio). De qualquer modo, os fantasmas existem, ou melhor, a spectral turn de facto proliferou nas últimas décadas, aberto o baú em Spectres de Marx, e a espectralidade foi-se transformando – nos piores casos – num prêt-à-porter que deposita lençóis hermenêuticos sobre todo o objecto literário, artístico ou cultural. O fantasma solidificou em poltergeist, o cazumbi que cria ruído, distúrbio, perturba um sossego que não se conhecia. Nada resolve dizer, por exemplo, que o espectro do fantasma assombra a teoria, a crítica, a História, a academia, as formas culturais. E que pensar do facto de, na época futebolística 2009/2010, ter passado pelo plantel do Sport Lisboa e Benfica um pouco profícuo avançado de nome Alan Kardec? É a partir desta sorte de sobejidões que surge a vontade de re-literalização que preside às conversões religiosas: a única saída para esta prodigalidade do espectro seria acreditar mesmo em fantasmas. Ficaria assim resolvida a incerteza semântica e performativa que os fantasmas carregam: não é figura, não é metáfora, não é trauma, não é coisa que faz como se, é mesmo ectoplasma. Por outro lado, tal como todo o fenómeno paranormal, o fantasma também é infalsificável. Cheque-mate no vazio, onde agora passa a haver fantasmas a sério.
Se é então impossível escapar ileso ao espectro do espectral, começo por olhar para debaixo da cama à procura do conforto do fantasma privado e familiar: um poema chamado “Nada consta”, que aparece no País Possível de Ruy Belo[i], e me aparece a mim inopinado, com uma insistência indecorosa, vai para muitos anos, seja este ou aquele par de versos, seja o poema completo, porque sem o querer sei-o de cor. Este poema assombra-me como uma obsessão e dói-me como um membro fantasma. Começa com estes dois versos: “Falta-me a folha cinco / E entretanto a minha barba foi crescendo”, e, num avanço prosodicamente aos repelões, fala do crescimento autónomo e “indiferente” dessa barba – coisa própria ma non troppo –, passa pelo estar no cinema (arte de fantasmas) e passa também “talvez em marienbad”, alusão a um filme povoadíssimo de espectros dos quais o espaço não é o menos importante, tal como neste poema em que Ruy Belo se figura tomado de um “mal de morte” enquanto, no Rossio, o bulício passa por ele como se fosse um fantasma. Sublinhe-se também dois versos aparecidos num outro poema de Ruy Belo: “A poesia pode muito para mim / pois vem iluminar os meus fantasmas” (2000, 642). Parece que já temos ectoplasma suficiente para começar.
Não tanto assim. Estas condições de base seriam as ideais para o exercício de um saber – sei de cor este poema, significa que ele corre do coração e circula nas minhas veias duplamente íntimas, e para mais ele aparece-me com a insistência e a arbitrariedade de um fantasma, tal como um –, mas também aqui há um excesso que corrói toda a capacidade interpretativa: já só leio (ainda sou eu quem o lê?) o poema com a dicção própria que lhe foi posta aquando de uma primeira leitura, que já não lembro porque as aparições sucessivas erodiram essa experiência inaugural e foram ainda raspando o sentido do significante (“I should have been a pair of ragged claws / Scuttling across the floors of silent seas”, e eis outro poema que é um saco de fantasmas nos meus dias). Ou seja: se algum dia em algum momento julguei perceber este poema, agora já não, e de cada vez menos: nada consta, bem entendido. Fico então com um poema que sei de cor mas não compreendo, e que insiste em reafirmar, no reaparecer constante, a sua ininteligibilidade progressiva, como uma demência ou, já que estamos no domínio do espectro, como os motivos musicais de um The Caretaker. E, fatalmente, aparecem-me neste preciso momento três versos do poema: “Continuo a dizer: se alguma coisa há / que podias perder e ainda não perdeste / de que já a perdeste podes estar certo” – e eis um exemplo de como em poesia é possível exprimir em três saltos entre tempos verbais, e em três versos, a experiência não só da perda mas também do deslembrar.
Um poema que se insinua assim na memória e na sensibilidade põe em jogo como que uma interpretação excessivamente literal dos ditos de Derrida sobre aprender o poema de cor: “[e]u sou um ditado, profere a poesia, aprende-me de cor, recopia-me, vela-me e guarda-me (…)”, e também “[o] poético, digamos, seria aquilo que desejas aprender, mas do outro, graças ao outro e sob ditado, de cor: imparare a memoria” (2003, 5-6). Nesse texto, Derrida faz do poema um ouriço à beira da estrada, “enrolado em bola junto de si”, frágil e prestes a ser atropelado por um “engenho portador da morte”, mas não esquece que o ouriço também pode ferir: “[o] poema pode enrolar-se em bola, mas fá-lo ainda para voltar os seus signos agudos para fora” (2003, 5 e 10). A cada reaparição do poema, a cada interpretação frustrada, sinto a pontada dos espinhos no membro fantasma que é a incompreensão. Nova aparição: “Quando as coisas se erguem contra o homem / se eriçam agressivas contra ele / nem ao poeta basta o parapeito das palavras”.
*
Apesar desse estribilho “nada consta”, posto no título e no remate do poema, não só consta nele, de forma evidente, a falta, como constam ainda diversas referências, motivos, envios a outras passagens da poesia de Ruy Belo. “Eu por exemplo homem de pouco tempo / trazido pelos dias aqui estou” faz rima interna com “Assim sou passado de dia em dia / confiado pelo dia que parte ao dia que chega” (2000, 51-52), e bem assim com tantos outros versos que exprimem a ideia de transporte no tempo, que tem aliás honras de título na sexta recolha de Ruy Belo. A “barba” que comparece neste poema, primeiro cresce e depois é feita – e com ela ou sem ela não há meio de encontrar a “folha cinco” –, remete para outra fixação de Belo com o que em nós cresce sem pedir meças à volição, neste caso as unhas, num poema que funciona como espelho deste: “A minha unha tem crescido tanto / e entretanto vim morrendo pouco a pouco” (2000, 374). E também, num verso que podia servir de súmula a todo o poema “Nada consta”, vemos, pela parte da barba e do tom melancólico, as ligações com “e eu cresço descresço não reparo e anoitece”. E ainda: a morte (a alheia e a própria, a intrigante imagem das “mulheres curtidas pelos lutos”), a decadência física (“já caem carnes já se perdem pêlos / já quase só me resta a devoção”), o supremo fantasma de Ruy Belo que é o Deus ausente e mudo (idem), essa presença recorrente que é o cinema, também e ainda um certo uso de um correlativo subjectivo com que, num inesperado tom de esperança sabotado no último verso, Ruy Belo apresenta uma possível salvação pelas pequenas coisas:
Poucas coisas importantes pensei durante a vida
uma mesa de sol em pleno inverno
um mar incontroverso alguns papéis
– continua a faltar-me a folha cinco –
pois apesar de tudo nada consta
“Nada consta”: curiosa expressão vinda dos baús da linguagem legal e administrativa, recuperada de forma certamente consciente por Ruy Belo. À pergunta que o cidadão faz sobre o que consta no seu registo criminal, responde o Estado com “nada consta”, expressão que seria um aterrador retrato existencial se não presumisse uma elisão: nada consta de relevante, de aplicável à formalidade aqui requerida. Do mesmo modo que tantas “coisas importantes” ficam de fora de um registo criminal, Ruy Belo parece encenar aqui a rejeição de uma concepção da vida medida pelo acumular de eventos fortes – filhos, amores, livros, prémios e distinções, grandes acidentes, grandes salvações, “viagens lunares”, todo o material da hagiografia –, contrapondo-lhe uma biografia em que “nada consta” senão um punhado de imagens descarnadas, fantasmas sem rosto, que constituem o grau absoluto da subjectividade: o “parapeito das palavras” postas em sentido pelo poeta só pode enunciar o impartilhável das imagens que vivem no núcleo das obsessões próprias.
Fica a faltar a esta espectrografia contrariada a interpretação do poema, mas a verdade é que entretanto a minha barba foi crescendo e também já não sei onde pus a folha cinco.
Referências
Belo, Ruy (2000). Todos os poemas. Lisboa. Assírio & Alvim.
Derrida, Jacques (1993). Spectres de Marx. Paris. Galilée.
Derrida, Jacques (2003). Che cos’è la poesia? (trad. de Osvaldo Manuel Silvestre). Coimbra. Angelus Novus.
[i] Daqui em diante, todas as citações com aspas e sem remissão bibliográfica pertencem a este poema e provêm da edição Todos os poemas (Ruy Belo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2000, pp. 371-372).